24 de out de 2008

O risco do excesso de babagem

Sexta-feira, 24 de outubro de 2008, 16h. Estou no saguão do hotel aguardando o táxi que me levará para o aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires. Seria o encerramento de um feliz período nesta cidade, que iniciou com um romântico fim de semana acompanhado de minha esposa e terminou com uma excelente conferência denominada Ágiles 2008 (http://agiles2008.org/). Digo seria pois o roubo de meus pertences na abertura do evento realmente não fazia parte de meus planos ...

Quanto ao roubo, só posso dizer que, se afastar da cadeira por um instante, para cumprimentar o palestrante, e não encontrar mais sua pasta no minuto seguinte de seu retorno provoca sensações muito desagradáveis de vazio e desespero, principalmente quando dentro desta pasta se encontram notebook, celular, câmera digital, óculos, agenda, etc. Sei que este problema tem sido vivenciado cada vez mais por pessoas das mais diferentes partes do mundo, mas sei também que esse cenário, infelizmente, só tende a piorar em todos os lugares ... Então por que estou escrevendo sobre este assunto num blog dedicado a Metodologias Ágeis? É que, depois do incidente, me deparei com alguns pensamentos que me remetaram a associar o fato a uma das principais fontes de problemas que encontramos diariamente em nossos projetos de software: o excesso de bagagem ao qual são submetidos toda a equipe de desenvolvimento!

Pensem à respeito: qual o custo que irei pagar por não ter tirado da pasta coisas que eu certamente não utilizaria durante a abertura do evento? Além da perda de meus pertences (que terei de comprar novamente), existe o desgaste físico de carregar o excesso antes do incidente, existirá o tempo de reinstalar todas as aplicações que tinha no computador, tem o tempo de recuperar o backup que fiz antes de viajar (pelo menos eu tinha um plano de contingência para esses tipos de problemas), e ainda tentar lembrar das atividades de consultoria que fiz durante o mês pois todos os registros de trabalho estavam em minha agenda.

Dado que sempre na abertura de eventos ganhamos pastas e material promocional (é o que se espera, não é?), por que diabos eu havia levado minha pasta até com um modem 3G que eu não iria utilizar na Argentina? Será por que todas essas coisas já estavam ali dentro mesmo? Faziam parte do meu "toolbox" padrão associado à uma pasta de trabalho?

Mesmo continuando com o backup diário ou semanal, levar somente o que é necessário para nossas atividades diárias e manter todas as coisas sob nossa permanente atenção não seria uma forma mais efetiva de reduzirmos os riscos de um roubo nos dias de hoje? Pois bem! Faço-vos algumas perguntas para que pensem sobre suas estratégias de mitigação de riscos utilizadas em seus projetos de software:

  1. Nos dias de hoje, com a alta volatilidade que apresentam os processos de negócio, por que ainda queremos levar conosco todos os requisitos de sistema capturados de forma detalhada, meses de antecedência da real utilização dos mesmos? Como poderemos calcular o risco de não utilizarmos aquilo que foi analisado e também os custos das futuras mudanças?
  2. Por que continuamos gastando um enorme tempo planejando interrelações entre tarefas num plano de projeto se já sabemos antecipadamente estará desatualizado na próxima semana? Qual o risco de perdermos todas as horas trabalhadas em previsões feitas sobre eventos de baixa probabilidade de realização na ordem prevista?
  3. Por que continuamos levando conosco artefatos de projeto (registros, documentos, indicadores, etc.) que definitivamente não agregam valor ao produto final de nosso trabalho (identifique quantas vezes você realmente fez uso das diversas informações coletadas durante o projeto ou dos documentos elaborados sem a solicitação do cliente)?
  4. Quantas vezes investimos na sofisticação de produtos ou processos quando uma simples solução não glamourosa resolveria o problema de uma forma perfeitamente aceitável?

Eu poderia continuar enumerando uma infinidade de perguntas relacionadas às nossas atividades diárias em projetos de software, tendo sempre como base os sete desperdícios do Sistema Toyota de Produção: Defeitos, Excesso de Produção, Estoque, Excesso de Movimento, Excesso de Processamento, Transporte e Espera. Porém, acredito que a essência da resposta que surgirá para todas essas perguntas está no MEDO! O medo de faltar algo durante qualquer momento de nossas vidas! O medo de não ter o computador para demonstrar nossos resultados a um colega (mesmo sem ter planejado que eu o faria durante o evento). O medo de não ter meu telefone para receber uma ligação de minha esposa (mesmo que eu tenha planejado ligar para ela do hotel, após o evento), e assim por diante.

Tente entender o paradoxo da situação: "Por medo da falta, levei tudo! Por ter perdido tudo, agora tudo falta!". Para quem ainda não entendeu a relação desse evento de minha vida com os eventos cotidianos de um projeto de software, faça para si uma última pergunta: "É mais fácil eu calcular o risco do excesso de bagagem do meu projeto de software ou reduzir o risco do projeto diminuindo o tamanho da bagagem que temos que carregar ao longo do mesmo?"

Pelo menos eu já estou publicando este post de meu novo notebook! Um modelo bem barato para diminuir as perdas de um possível novo incidente! Hehehe!